Onde vivem os filmes
Jornal da Tarde — Fernanda Brambilla
A lista dos filmes indicados ao prêmio mais nobre do cinema desperta torcida nas livrarias do PaÃs, onde tÃtulos que deram origem aos seletos longas acabam de chegar. Por aqui, tempos de Oscar fazem esquentar um mercado literário que se arma para fazer fãs de blockbusters migrarem direto para as prateleiras.
“Hoje, o cinema age como um marketing maravilhoso para o livro”, diz Luciana Villas Boas, diretora nacional da Editora Record, que tem dois tÃtulos entre as principais indicações, Preciosa e Amor sem escalas. “Semanalmente, centenas de livros são lançados no PaÃs, mas o marketing sozinho de um deles é muito caro para o lucro que um tÃtulo pode dar”, comenta Luciana. Um filme por trás por resultar em um casamento harmonioso.
Para se ter uma ideia do efeito Oscar, o valor dos direitos autorais de um livro infla em média 50% quando ele já foi negociado para o cinema. Uma indicação para um prêmio grande, por sua vez, pode dobrar a quantia.
Nas apostas da editora, Preciosa, drama de superação com Mariah Carey, que estreia dia 12 por aqui, tem expectativas altas. “Nos próximos seis meses, o livro deve chegar a 50 mil exemplares”, contabiliza a diretora, torcendo para que o exemplo de Julie&Julia se torne recorrente.
“Antes da Meryl Streep ganhar qualquer indicação, o livro vendeu 10 mil exemplares. Era mais restrito ao universo de amantes da gastronomia e estudantes de culinária. Agora, vamos chegar a 17 mil facilmente”, diz Luciana.
Uma das armas dessa estratégia é colocar, na capa, a foto do filme, que muitas vezes não traz custo algum às editoras. Em Amor sem escalas, comédia romântica estrelada por George Clooney com cinco indicações ao Oscar, entre elas de melhor ator e melhor filme, estampar a imagem saiu de graça depois de uma parceria com os distribuidores. O resultado, apostam os livreiros, deve aparecer.
MÃdia de massa
“O cinema é uma mÃdia incomparavelmente mais abrangente do que o livro, e o público dos dois é o mesmo. Então, um livro que seria mais um romancezinho muda de figura com um George Clooney na capa”, teoriza Flávio Seibel, diretor da Livraria da Vila. Já para se ter a foto de uma melindrosa Michelle Pfeiffer estampando o romance homônimo Chéri, a Editora Record pagou uma taxa de US$ 150. E o filme não ganhou nenhuma indicação.
E se uma boa safra de filmes dá fôlego ao mercado literário, um diretor consagrado é uma grande ajuda na hora de lançar um novo selo. Com apenas um ano no setor, Amarilys, da editora Manole, aproveitou a fama de Quentin Tarantino entre os cinéfilos para lançar o roteiro original de Bastardos inglórios. Notas de rodapé escritas pelo excêntrico diretor, referências ao cinema alemão da época da Segunda Guerra, cenas que acabaram editadas e detalhes sobre as gravações serviram como chamariz. A capa foi escolhida a dedo pelo próprio Tarantino.
“O livro foi para as livrarias na semana de estreia do filme e, em 2009, fechamos o ano com mais de mil exemplares vendidos”, comemora um dos diretores da editora, Luis Pereira. “Para um gênero sem tradição, este é um grande número.”
