Folha de S. Paulo — Raquel Cozer
Vera, mulher de Vladimir Nabokov (1899-1977), foi quem salvou Lolita quando o autor começou a pôr fogo nos manuscritos no quintal de casa, em 1950. Ele só via defeitos ali. Publicado cinco anos depois, o romance o consagraria. Agora, leitores de vários paÃses terão acesso a O original de Laura, outra obra cujo destino seriam as chamas não fosse a interferência de Vera.
Com uma diferença. Nabokov não só não teve tempo de mudar de ideia quanto à qualidade desses últimos rascunhos como não pôde concluÃ-los, já que morreu antes. Seu derradeiro pedido à mulher foi que ateasse fogo aos papéis caso o romance não fosse finalizado. Sem coragem para queimá-los, Vera os guardou até morrer, em 1991. Dmitri, filho do casal, manteve desde então a dúvida sobre a publicação.
Em 2008, fechou com as editoras Knopf/Random House (EUA) e Penguin (Inglaterra). Dmitri alega que se trata de um romance “brilhante”. A primeira crÃtica, feita em julho pela Publishers Weekly a partir de um trecho, foi negativa e alimentou os comentários sobre o interesse financeiro na decisão – sabe-se que, aos 75, debilitado, o filho de Nabokov precisa pagar internações e exames caros na SuÃça.
O livro terá lançamento depois de amanhã, num evento em Nova York que contará com a presença do escritor inglês Martin Amis e do irlandês Brian Boyd, mais renomado biógrafo de Nabokov. No Brasil, sai no próximo final de semana, editado pela Alfaguara (tradução de José Rubens Siqueira, 304 páginas, R$ 59,90).
Em entrevista à Folha por telefone, da Nova Zelândia, onde vive, Boyd demonstra sentimentos ambÃguos em relação ao lançamento. Ele foi consultado por Dmitri ao longo de todo o processo e chegou a ajudá-lo com ideias para a edição, mas ainda lembra a impressão que teve quando, em 1987, tornou-se a primeira pessoa fora da famÃlia a ver os rascunhos.
“Não fiquei bem impressionado. Quando Vera e Dmitri me perguntaram o que deveria ser feito dos manuscritos, falei para eles os destruÃrem. Tive medo… Não tinha gostado dos últimos romances dele e tive medo de que Laura fosse o sinal evidente do declÃnio”, diz. Boyd ressalva que, naquele momento, só conseguiu ler os rascunhos na frente de Vera, “o que pode ter influenciado no mal-estar em relação ao texto”.
Biógrafo muda de ideia
O biógrafo – que hoje edita uma coletânea de cartas de Nabokov – diz pensar diferente agora. “Quando reli o material, em 2001, meu conceito melhorou muito. Não é uma história incrÃvel, como Ada ou ardor, mas tem malÃcia, capacidade de envolver, um jeito de fazer as coisas acontecerem mais rápido do que o leitor pode lidar. Num ponto baixo de sua carreira, Nabokov descobre novas formas de narrar.”
O original de Laura tem semelhanças com Lolita – envolve a relação entre um homem maduro e uma garota. Flora, cuja vida sexual conturbada levou um ex-amante a escrever escandaloso livro (Laura), casa-se com um homem bem mais velho, Philip Wild. Ao longo do livro, Nabokov remete à morte de Wild. Os textos foram escritos em 138 cartões, com situações centrais a partir das quais Nabokov desenvolveria a história. O autor já estava com vários problemas de saúde nos meses em que os rascunhou.
Boyd diz que a edição tem a vantagem de deixar claro que não se trata de um trabalho final. A versão em inglês traz reproduções dos cartões que podem ser retiradas e devolvidas ao livro. No Brasil, o livro sairá com os fac-sÃmiles, em inglês, e a tradução ao lado.
Obra é a 1ª de Nabokov em nova editora
O original de Laura será o primeiro de 12 tÃtulos do autor a serem editados pela Alfaguara no Brasil. Para 2010, estão previstos A verdadeira vida de Sebastian Knight, de 1941, fora de catálogo no paÃs há quase 30 anos, e uma coletânea de contos, metade inédita em português.
Brian Boyd, biógrafo de Nabokov, diz que não há mais ficções inéditas a saÃrem em lÃngua inglesa. Ele agora edita uma série de cartas do autor, prevista para os próximos anos.
New Yorker se recusou a publicar os originais, que sairão pela Playboy
O filho do autor russo Vladimir Nabokov, Dmitri, vem recebendo crÃticas negativas da imprensa desde meados da década de 1990, quando ficaram claras suas intenções de publicar o romance inacabado do pai.
O assunto voltou à tona no ano passado, quando os direitos foram vendidos a editoras de todo o mundo. Em julho deste ano a revista Publisher Weekly teve acesso ao texto e fez a primeira resenha. A notÃcia era ruim: “Será um erro se os leitores chegarem a esse livro esperando qualquer coisa que lembre um romance”.
Outro golpe pelo qual passou a investida de Dmitri veio quando a prestigiosa revista literária norte-americana New Yorker se recusou a serializar os manuscritos em suas edições. Restou ao agente literário contratado por Dmitri, Andrew Wylie, oferecê-los para a Playboy americana – que os publicará a partir de dezembro.
Os envolvidos na edição de O original de Laura costumam citar um fato irônico quando criticados. Nabokov era admirador de Franz Kafka (1883-1924). Antes de morrer, o tcheco pediu ao amigo Max Brod que queimasse os originais de obras como O processo e O castelo. Sobre isso, Nabokov certa vez escreveu: “Felizmente, Max Brod não atendeu ao desejo do amigo”.
Brian Boyd, biógrafo do autor, lembra outra ironia, na entrevista à Folha. Nabokov gostava de citar seu poeta favorito, Púchkin, que dizia: “Escrevo por prazer e publico por dinheiro”. É de dinheiro, afinal, que trata toda a polêmica. “É inegável que Dmitri tem em mente o que ganhará com a venda do livro e com o aumento do interesse pela obra de Nabokov”, diz Boyd.


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