Depois de perder o comando da empresa de computação gráfica que fundou e recomeçar do zero abrindo com amigos um escritório de arquitetura, o francês Marc Levy decidiu escrever, no final dos anos 90, um romance para seu filho. Sob a insistência de sua irmã roteirista, enviou os originais à editora Robert Laffont. A sequência é conhecida: E se fosse verdade tornou-se, em 1998, o primeiro de uma série de best-sellers que transformaram o então empresário em um fenômeno comercial da literatura de seu paÃs – e, mais tarde, do mundo. Adaptado para o cinema pela produção de Steven Spielberg (E se fosse verdade, com Reese Witherspoon) e no topo das listas com mais de 18 milhões de exemplares vendidos e traduções para 41 lÃnguas, é hoje o escritor francês mais vendido no mundo –- uma espécie de Paulo Coelho do paÃs de Molière.
Tudo pareceria perfeito, não fosse um pequeno detalhe: adorado pelos fãs, que fazem fila nas livrarias a cada lançamento, Marc Levy é, como seu colega brasileiro, execrado pela crÃtica de seu paÃs, que já perdeu a paciência com suas narrativas água-com-açúcar, repleta de bons sentimentos e “histórias de amor de uma beleza que ultrapassa tudo que se imagina” (palavras do próprio). Se no Brasil, onde acaba de sair Meus amigos, meus amores (seu sexto romance, escrito em 2006, descrito como “um retrato enternecedor da vida contemporânea”) o autor continua relativamente pouco conhecido por público e crÃtica, na França ganhou o mesmo destino de outros expoentes do best-seller de verão, categoria que engloba outros especialistas em prosa leve para ser lida à beira-mar, como Anna Gavalda, Guillaume Mousso e Bernard Weber. Aplausos do público e pedradas da imprensa.
Excesso de bons sentimentos
“Li Marc Levy apenas uma vez, e não pretendo fazê-lo de novo”, diz ao Jornal do Brasil um sempre lacônico e irônico Jerome Garcin, um dos crÃticos mais conhecidos da França, diretor-adjunto da revista Le Nouvel Observateur e mediador do Le masque et la plume, tradicional programa de debates literários da rádio France Inter. Na crÃtica de sua única leitura do autor, o jornalista detona: “Como bom cÃnico, ele junta Paulo Coelho com Robocop e o café do comércio ao museu Grévin”.
Cercado por péssimas resenhas, Levy assume uma postura cool. Educado e atencioso com repórteres e leitores, até se parece com os personagens de seus romances – sujeitos simpáticos, que trazem sempre uma valiosa lição de vida na ponta da lÃngua (leia-se pérolas como “O mundo é grande, e a amizade, imensa” ou “Basta renunciar a seus sonhos, e eles começam a desmoronar”). Afinal, trata-se de um autor que diz gostar de escrever “histórias que fazem bem”.
“Fui educado numa famÃlia que me ensinou que ter humor era rir de si mesmo antes de rir dos outros e onde o ego não entrava” escreve o autor em seu site. “Quando a crÃtica é dignamente escrita e construtiva, respeito e presto atenção. Quando é excessivamente agressiva, nem ligo. É melhor não dar mais atenção aos crÃticos do que aos leitores”.
Para a crÃtica Johanna Luyssen, do Le Figaro, a apreensão dos resenhistas se deve principalmente ao excesso de bons sentimentos que emanam dos textos do autor (caracterÃstica não muito bem vista) assim como suas fórmulas copiadas dos best-sellers americanos.
“Os crÃticos não sabem bem o que é, porque não está na tradição francesa”, diz a jornalista, que considera o estilo de Levy “eficaz, mas pouco ambicioso”. “Não é que não se goste de literatura americana. O problema é o estilo formatado, com receita fácil, intriga leve e sentimentalismo. Em termos de literatura popular, já houve gente muito melhor, como Alexandre Dumas, por exemplo.”
Já o crÃtico Nihls C. Ahl, colaborador do suplemento literário do Le Monde, acredita que o sucesso de Levy – e de seus semelhantes – se deve a mudanças de hábito de leitura entre os franceses. Embora afirme ser apenas coincidência, o escritor lança todos seus livros durante o verão, época em que grande parte das pessoas costuma buscar uma literatura que não exija muita concentração.
“Com a crise, viaja-se cada vez mais dentro do paÃs em vez de ir para o exterior”, argumenta Ahl. “E, pelo poder econômico da editora, encontram-se livros de Levy em qualquer vilarejo, estação ou aeroporto. Além do mais, ele achou o formato perfeito: as histórias não são complicadas e mantêm a atenção do leitor o tempo todo, como os thrillers ou as comédias. E são longos o suficiente para durar as três semanas de férias. Então, em vez de comprar cinco livros de poesia, por que não comprar um só de Marc Levy?”
Ahl, que considera os romances medÃocres (mas não ao ponto de serem chamados de “infames”) também aponta a exposição pública de Levy, figurinha fácil em programas de rádio e televisão. Ele lembra que o escritor foi muito favorecido pelo bafafá da mÃdia depois que Spielberg comprou os direitos sobre seu livro de estreia.
“Os outros autores são renegados a programas especializados”, diz. “Mas Levy aparece em qualquer show de variedades.”


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